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Resiliência à luz da psicodinâmica do trabalho



Podemos considerar que há algumas décadas o uso da palavra resiliência se tornou comum, corriqueiro, cotidiano, quase banal, nas organizações. Muito se fala que os trabalhadores precisam ser resilientes para dar conta das adversidades do dia a dia e, ainda mais; para mostrarem que podem ser criativos quando há dificuldades a serem suplantadas no dia a dia da produção, seja ela de cunho industrial, de serviços ou ainda no mundo da produção agrícola. Este termo, emprestado da física, muito usado para discutir a resistência dos materiais; algo fundamental para a engenharia civil, entre outras, pois é a resiliência que permite o não colapso da estrutura. Enfim, algo que não é rígido, que é flexível e que volta ao estado “normal” após a influência que alguma força que vergou o material. Isto é, o material volta ao estado de antes, como se nada houvesse acontecido.

Nem na física isto é verdade! Os materiais não voltam exatamente ao mesmo lugar, há algo que acontece na estrutura molecular que, mesmo tendo uma certeza flexibilidade, elasticidade, o retorno ao estado anterior jamais é completo.

Quando se trata de pessoas, o uso corrente do termo diz respeito a uma qualidade individual que precisa ser sempre desenvolvida para que esses trabalhadores utilizem as suas propriedades, o seu potencial para se mostrarem aptos a dar conta do que está previsto e, mais ainda, daquilo que não está previsto no seu trabalho. Parece que, de alguma maneira, está-se considerando aquilo que, há muito, se apregoa na Ergonomia Centrada na Atividade, que aquilo que foi previsto ou prescrito, corresponde em parte ao real, tanto em termos de quantidade como em qualidade dos fenômenos que emergem e que as pessoas precisam dar conta para produzirem com qualidade e mantendo níveis satisfatórios de produtividade.

Enfim, há que se dar conta da adversidade, há que se manter em boas condições, mesmo que as vivências cotidianas do trabalho sejam geradoras de sofrimento, espera-se uma grande capacidade de superação de cada um. Para favorecer o fato de que as pessoas se tornem cada vez mais resilientes, é importante ajudá-las a melhorar o seu potencial, há que treiná-las para que consigam fazer um bom diagnóstico situacional, que percebam o seu estado e que mobilizem seus recursos para enfrentar uma situação difícil e transpô-la. Assim, as pessoas se fortaleceriam e estariam cada vez mais aptas a enfrentar situações cada vez mais difíceis.

Os conceitos de empreendedor de si mesmo e de vencedor vão de par com esta perspectiva. É importante ser flexível pois a rigidez não seria uma qualidade para ter sucesso nas organizações. Trata-se de uma qualidade adaptativa, enfim de recursos para se adaptar às mudanças que ocorrem no ambiente da produção. Neste sentido, não se trata mais de tarefas rígidas, típicas do taylorismo e do fordismo, mas sim de um mundo de produção flexível que se adapta. Para tal, os trabalhadores precisam ser flexíveis e adaptáveis aos mais variados fenômenos que emergem.

À luz das ciências do trabalho, em especial a Ergonomia Centrada na Atividade e a Psicodinâmica do Trabalho, algumas considerações são importantes. O pressuposto fundamental da ergonomia é o de adaptar o trabalho às características humanas, considerando aspectos físicos, cognitivos e organizacionais. Isto é, o de favorecer a criação de sistemas de produção onde são consideradas as propriedades e as limitações do ser humano. Ainda mais, há uma visão desenvolvimentista da ergonomia, onde as pessoas, vão se tornando mais e mais competentes, a partir de cenários de produção propícios.

No que diz respeito à psicodinâmica do trabalho a questão não pode ser relegada apenas ao aspecto individual. Ser resiliente não é um conceito usado neste campo do conhecimento, uma vez que o trabalhar é definido como algo relacional, como uma atividade humana que se dá sempre na relação com o outro. Trabalhamos para e com os outros, mediados por diferentes modalidades de organização do trabalho. Por mais que seja importante a questão do sujeito, do indivíduo, não se trata de considerá-lo isoladamente, como se fosse uma ilha; como se dar conta da produção fosse de única responsabilidade daquela pessoa.

Para a PDT a questão da cooperação e das relações entre trabalhadores de diferentes níveis hierárquicos é central. Cooperar com os outros é fundamental durante toda a existência do humano; tratar essa questão com a importância devida, uma vez que é algo primordial na construção tanto na constituição do sujeito, como da própria sociedade, deveria ser o mote principal das modalidades de organização do trabalho. Ressalte-se que aquilo que o ocorre nas organizações tem uma grande importância na modulação das relações sociais.

Não há dúvidas que cada um trabalha com o seu corpo, que o viver e o sentir é uma experiência individual. Todavia isto se dá em cenários onde o outro está sempre presente, com todos os desafios inerentes a questões relacionais e, ainda, com relações a questões de diferentes níveis de poder. Construir relações saudáveis no trabalho é considerar a importância da contribuição de cada um e as suas capacidades. Todavia, não se pode valorizar apenas o indivíduo que, isoladamente se torna muito mais frágil e sujeito a todos os tipos de injustiça que podem emergir em diferentes cenários de produção.

A questão fragilidade não pode ser tratada como uma falha individual a ser sanada, como nas propostas mais recentes que a querem combater com o “anti-frágil”, aquele que se alimenta da adversidade para ficar mais forte. Mais uma vez, se propõe estratégias de ações voltadas exclusivamente para o indivíduo e que, aprofundam o ideal de um ser humano que não existe, um ser humano idealizado, como já houve em vários momentos da História; em alguns casos, com consequências nefastas. Que tipo de ser seria este?

Considerar o humano, de fato, é ter claro que somos fortes e fracos; que somos capazes de desenvolver ações consideradas eticamente valorizadas e, também aquelas que são condenáveis; enfim, que o humano é ambivalente. Por isso, a busca de modos de produção que favoreçam o "que há de melhor em nós” (Dejours), é fundamental, pois trata-se da construção da própria civilidade.

Em conclusão, à luz da psicodinâmica do trabalho, a resiliência não é um conceito a ser usado e defendido, ainda mais porque é uma proposta de isolamento do sujeito. A proposta da psicodinâmica está baseada na consideração tanto do indivíduo e de seu protagonismo; como, e principalmente o coletivo, e suas relações. Portanto, trata-se de considerar que bons resultados tanto para a produção, como para o desenvolvimento dos sujeitos, dos coletivos e das profissões como um fenômeno emergente, construído pelas possibilidades de regulação que se desenvolvem moduladas pela organização do trabalho. Se assim constituirmos o mundo da produção, as organizações podem se tornam, mais robustas e propícias para a construção da saúde dos trabalhadores. Isto porque os sujeitos que constituem as malhas de relações internas trabalham em condições propícias para a construção de relações saudáveis, calcadas na solidariedade e na cooperação. Isto é muito distinto e distante de organizações rígidas, onde impera o mundo da competição, nas quais as pessoas são tratadas como “coisas” individualizadas. Portanto, resiliência e, ainda mais a anti-fragilidade devem ser tratados mais como uma proposta de reduzir o humano a coisas do que tratar o trabalho e o trabalhar como um dos pilares daquilo que constrói a civilidade e a cultura.

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