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Teoria da Sedução Generalizada e a Tradução do Recalcado

Origens do conceito de Sedução em Freud


Para compreendermos a origem do conceito de Sedução em psicanálise, é necessário que retomemos o percurso inicial de Freud e a construção da própria psicanálise. Para ele, em Sobre a História do Movimento Psicanalítico, Freud afirma que “a repressão é a pedra angular do edifício da psicanálise”. E em sua Autobiografia reafirma: “as teorias da resistência e da repressão do inconsciente, da significação etiológica da vida sexual e da importância dos acontecimentos infantis são os elementos principais do edifício teórico psicanalítico”. E como indaga Mezan (Freud: a trama dos conceitos, p.4), qual foi “...o motivo do destaque concedido ao conceito de repressão pelo próprio fundador da Psicanálise?”. Devemos ter em mente que o caminho percorrido inicialmente por Freud foi longo e tortuoso.

Iremos apresentar de forma sucinta, dado o escopo deste texto, o trajeto realizado por Freud que o levou a elaborar o conceito de sedução e sua relação com o conceito de repressão. Usaremos indistintamente repressão e recalque neste texto. Temos consciência que há uma discussão especializada a respeito da distinção ou indistinção destes dois conceitos.

Para tratar pacientes com sintomas histéricos, Freud assume a posição de que trata-se de um fenômeno psíquico, isto é, da ordem da imaginação das pacientes e contra os conceitos médicos correntes de sua época que defendiam que este quadro se devia aos distúrbios funcionais de origem orgânica. Neste início Freud teve influência de Charcot que em seus experimentos no Hospital Geral de Salpetriere, mostrava como através da hipnose era possível induzir sintomas histéricos em pacientes normais o que demonstrava a importância das ideias e suspender estes sintomas em pacientes histéricos momentaneamente. Mas, Charcot não tinha interesse na psicologia dos estados histéricos e atribuía a sua origem à fisiologia, ou mais especificamente, “a uma deterioração hereditária do cérebro”. E quando um paciente havia, por exemplo, vivido eventos traumáticos que eram considerados acidentais, Charcot defendia neste caso que “a histeria era traumática e os sintomas ideogênicos”. (Mezan, p.5).

Freud junto com Breuer, se opõe à posição de Charcot: “pelo contrário, devemos sustentar que o trauma psíquico, ou a memória do mesmo, age como um corpo estranho, devendo ser considerado, mesmo muito tempo depois de sua penetração, como um agente do presente” (Mezan, p.5). Breuer havia modificado o método hipnótico levando a resultados surpreendentes para a época.

Freud, ao tomar conhecimento do tratamento clínico realizado por Breuer (o famoso caso da Ana O), percebe o grande potencial do método catártico que este último havia elaborado. Este método consistia em hipnotizar a paciente e através da sugestão interrogava-se a origem do sintoma. Com isto, o trauma psíquico ou a série de traumas emergia. Produzia-se a catarse dos traumas e os sintomas desapareciam. A este processo catártico Breuer e Freud vão chamar de ab-reação. O importante é salientar a importância da fala, tanto do hipnotizador como da paciente. Mas, neste momento, é bom lembrar que era uma fala dentro de uma relação desigual, assimétrica entre médico e paciente.

A catarse ocorria com a recordação e rememoração da situação traumática e ao relatar o ocorrido, esta fala tinha um efeito catártico. Em outros termos, as recordações correspondem a traumas que na ocasião em que foram produzidas, não houve possibilidade de uma descarga emocional adequada (não puderam ser ab-reagida). E a histérica passava a viver de reminiscências do passado, ou seja, como dito anteriormente, o trauma psíquico continuava atuando “como um agente do presente”.

Mas, Freud vai aos poucos abandonado este método dada as dificuldades e as restrições que a hipnose apresentava. Ele aponta dois obstáculos: “primeiro, nem todos os pacientes eram hipnotizáveis, embora manifestassem claramente sintomas histéricos; segundo, era preciso descobrir precisamente o que caracterizava a histeria e em que diferia das outras neuroses”. (Mezan, p.16). Quanto ao primeiro obstáculo, Freud chega a afirmar também que ele não manejava bem esta técnica, o que dificultava o tratamento. No segundo caso, dado o paciente se encontrar em estado hipnótico, não havia possibilidade de distinguir os vários quadros de neuroses e suas estruturas. O médico limitava-se a remover os sintomas sem possibilidade de uma investigação direta da origem dos sintomas.

Aqui é importante salientar que havia uma relação de poder: no processo hipnótico assujeita-se o outro. Um tem o domínio sobre a vontade do outro, ou seja, só o médico fala e a paciente permanece em silêncio. Ela só vai falar com a sugestão dada pelo médico. E ambos neste tipo de processo, como dito, não poderiam ter consciência das causas e do processo que levavam ao sintoma histérico. Por exemplo, não era possível observar um fenômeno que Freud vai descobrir com a mudança de técnica de tratamento que é a da resistência fruto da ação de defesas, no caso, a repressão. E mais, não era possível observar a etiologia sexual das neuropsicoses de defesa. Na catarse a sexualidade não tem nenhuma função.

Freud para abandonar a técnica hipnótica deveria resolver a seguinte questão: “como induzir a paciente a se recordar dos eventos traumáticos sem recorrer à hipnose?”. Ele se lembra então de uma observação que fez quando esteve em Nancy: “Berheim conseguia fazer o paciente, recém despertado do estado hipnótico, recordar-se do que ocorrera durante tal estado, mediante a aplicação de uma pressão na testa e a sugestão de que, no momento em que a pressão fosse retirada, as recordações emergiriam sem dificuldade” (Mezan, p.16).

Freud passa a induzir os pacientes a revelarem o que sabiam daquilo que se revestia de significação patogênica. Quando eles não produziam a recordação desejada, Freud insistia até que ela aparecesse. Foi neste processo que Freud descobre o fenômeno da resistência. Esta técnica exigia uma absoluta cooperação por parte dos pacientes para que esta, que vai ser chamada de técnica de concentração, desse resultado. Freud passa a suspeitar no tratamento de uma paciente (Elizabeth von R.) de que realmente ela se recordara de alguma coisa, mas, se recusava a falar sobre por causa de uma autocrítica injustificada ou porque o tema a ser tratado era demasiado penoso. 

O que seria tão penoso? Aqui Freud passa a vincular defesa e sexualidade. No caso da Elizabeth von R., “a ideia reprimida era de natureza erótica e incompatível com a consciência moral da jovem” (Mezan, p.18). A defesa poupa a paciente de um conflito intolerável. 

Esta descoberta permite Freud afirmar em Psicoterapia da Histeria: “Se podemos falar de uma causa pela qual as neuroses podem ser adquiridas, sua etiologia deve ser buscada em fatores sexuais. Isto concorda com a descoberta de que, falando de maneira geral, vários fatores sexuais podem produzir vários quadros clínicos de moléstias neuróticas” (apud Mezan, p.20). 

Em 1986, Freud apresenta um artigo, Novas Observações sobre as Neuropsicoses de Defesa e faz uma conferência sobre a Etiologia da Histeria. A novidade deste artigo e desta conferência é a apresentação com todas as letras da Teoria da Sedução: “Para causar uma histeria, é preciso que a experiência que vai se tornar traumática, através da liberação e da repressão do afeto doloroso, pertença aos traumas sexuais da infância; e seu conteúdo deve consistir numa irritação real dos órgãos genitais. A determinação específica da histeria é a passividade sexual nos períodos pré-sexuais” (apud Mezan, p.38).

Laplanche e Pontalis em seu Vocabulário da Psicanálise, escrevem o seguinte sobre a Teoria da Sedução: “cena real ou fantasmática, em que o indivíduo (geralmente uma criança) sofre passivamente da parte do outro (a maioria das vezes um adulto) propostas ou manobras sexuais” (p.610). E mais adiante, desenvolvem esquematicamente: “esta teoria supões que o traumatismo se produz em dois tempos separados um do outro pela puberdade” (p.610). 

O primeiro tempo é caracterizado, como dito anteriormente por Freud, como um acontecimento sexual pré-sexual aduzido do exterior por parte de um adulto na maioria das vezes. Do lado da criança, esta sofre passivamente e é ainda incapaz de emoções sexuais dada a condição infantil (ausência das condições somáticas da excitação e impossibilidade de integrar a experiência). Esta cena, nesse sentido, não é objeto de recalcamento. Vai ser no segundo tempo, um novo acontecimento que não implica necessariamente um significado sexual em si mesmo, que evoca-se por alguns traços associativos a recordação do primeiro. Freud nota que a recordação produz um efeito muito mais considerável do que o próprio acontecimento. Em outras palavras, vai haver uma ressignificação da cena, ou como Freud diz, uma compreensão diferida da experiência da infância. É sobre o recalcamento da sedução que pode-se entender a gênese do recalque, ou seja, em relação ao que constrói-se as defesas. 

Freud neste momento entendia a sedução como um fato real: a neurose teria como origem um abuso sexual real. Mas, aos poucos vai abandonar esta teoria ao encontrar uma realidade irredutível: nem todos os pais eram violadores e, ao mesmo tempo, as histéricas não estavam mentindo quando se diziam vítimas de uma sedução. Para dar conta desta contradição, Freud substitui a teoria da sedução pela da fantasia, o que implicava a elaboração de uma nova teoria da realidade psíquica baseada no inconsciente. 


Teoria da Sedução Generalizada em Laplanche 


Laplanche em seu livro Teoria da Sedução Generalizada e outros Ensaios, e mais especificamente no capítulo Da Teoria da Sedução restrita à Teoria da Sedução Generalizada, vai retomar a teoria da sedução de Freud, desenvolver e ampliá-la. 

Laplanche parte da posição de que houve um ocultamento “junto com a teoria da sedução, um fundamento essencial da psicanálise” (p.108). Nesse sentido, o objetivo do texto é o de “mostrar as razões profundas deste ocultamento, de indicar como pode ser ultrapassado e como pode ser fundamentado de novo, mas desta vez na sua radicalidade, o que Freud havia largamente traçado antes de apagá-lo” (p.108). 

Para tanto, dois elementos vão atravessar o seu texto: “realidade efetiva de uma sedução e a teoria da sedução” (p.18). O autor retoma a investigação que Freud fazia em relação aos fatos da sedução através do método analítico em que as “cenas” eram reencontradas, reconstruídas e rememoradas. Mas, neste período, Freud não parava aí, confrontava estes achados intra-clínicos com as pessoas próximas dos pacientes buscando validar a ocorrência real destes “acontecimentos de uma experiência sexual prematura”, ou seja, na infância. 

Como dito anteriormente, “a criança se encontra num estado de imaturidade, incapacidade e insuficiência em relação à experiência que lhe acontece”. Este estado de despreparo é necessário para que o traumatismo aconteça. Como bem pontua Laplanche, “o essencial é que a criança num primeiro tempo do traumatismo situa-se num antes, num pré que a separa do que será o segundo tempo” (p.110). Nesse sentido, o importante é lembrar que a característica mais essencial que define a própria sedução é a passividade da criança em relação ao adulto. É o adulto que toma a iniciativa, ele se insinua através de gestos e palavras de forma “agressiva”, “invasiva” e “violenta”. Isto ocorre num antes. O segundo tempo ocorre com a irrupção da sexualidade na puberdade. O jovem púbere ao recordar o fato, como já dito, vai ressignificar a cena da sedução. Esta rememoração vai ser então a fonte do quadro psicopatológico.

Para introduzir a teoria da Sedução Generalizada, Laplanche retoma a teoria freudiana, uma teoria original e complexa, em que Freud desenvolve segundo três registros: temporal, tópico e “tradutivo” (linguagem). 

Do ponto de vista temporal, é a teoria chamada posterior ou traumatismo em dois tempos. Como vimos, o primeiro tempo é o do terror. Aqui encontramos um sujeito que vive uma ação sexual altamente significativa, mas cuja significação não pode ser assimilada. No segundo tempo, surge uma cena que entra em ressonância associativa com a primeira e sua rememoração vai ser traumatizante. Para entender a saída patológica ou o recalque desta lembrança, é importante ter em vista o ponto de vista tópico. Ou seja, a dinâmica do recalcamento ocorre entre os sistemas PCs-Cs e o Ics. A teoria da sedução vai também se desenvolver no plano da linguagem (não linguístico) em que inclui “todos os modos articulados de comunicação” (p.112). Este modelo de comunicação “assimila a relação das cenas entre elas a uma reinscrição e a uma tradução, e o recalcamento a uma falha (parcial) de tradução, processo situado na barreira que separa duas épocas psíquicas” (p. 112). Trata-se aqui do registro “tradutivo”. 

Para compreendermos a teoria da sedução generalizada é importante retomar o conceito de sedução precoce em que Freud a situava no âmbito do Complexo de Édipo: o pai é a grande personagem da sedução infantil. Mas, nas Novas Conferências de Introdução à Psicanálise, Freud diz: “aqui a fantasia toca o solo da realidade efetiva, pois efetivamente provocou e talvez mesmo despertou pela primeira vez sensações de prazer no órgão genital” (p. 116). Com isto ele afirma que o pai da sedução “infantil” cede lugar à mãe, ou seja, para uma relação dita pré-edípica. “A sedução é aí veiculada pelos cuidados corporais prodigalizados à criança” (p. 116). Laplanche defende que trata-se de uma sedução necessária. E ela é universal, pois é uma situação de confrontação da criança com o mundo adulto. 

Nesse sentido, Laplanche defende esta sedução como uma sedução generalizada, uma sedução universal. Não podemos nos tornar um ser humano sem esta confrontação. Cada sociedade, cada cultura vai determinar o modo como esta confrontação se dará. Este mundo adulto caracteriza-se pelas mensagens (linguísticas ou semiológicas) que questionam a criança antes que ela tenha condições de compreendê-las, ela é desafiada a dar um sentido e atribuir um significado a estas mensagens e mais, que respostas deve dar a quais mensagens quando na origem ela ainda não está em condições de traduzi-las.

Segundo Laplanche, na sedução originária, o adulto propõe à criança significantes não-verbais tanto quanto as verbais. Nesta relação primeira da mãe com o bebê, os cuidados corporais são também compreendidos como mensagens e mensagens impregnadas de significações sexuais inconscientes. Dada a situação de imaturidade do bebê, esses significantes são inscritos no corpo da criança como significantes enigmáticos, neste momento não se tem condições de traduzir os desejos sexuais inconscientes dos adultos que a cuidam. Ou seja, “a criança imatura é confrontada com mensagens carregadas de sentido e desejo, mas das quais não possui a chave (significante enigmático)” que permitiria a tradução. Laplanche finaliza dizendo que “o esforço para ligar o traumatismo que acompanha a sedução originária leva ao recalcamento destes primeiros significantes e de seus derivados metonímicos ``. (p.101). O importante é salientar que este processo ocorre no âmbito inconsciente, ou seja, as mães do ponto de vista geral e consciente cuidam e amam os seus bebes com afeto e de forma sublimada. Não há nesse sentido intenção de seduzir os seus filhos tal como nos casos de violência do adulto sobre a criança.

À guisa de conclusão, o percurso percorrido por Freud permitiu-nos entender como Laplanche desenvolve a sua teoria da Sedução Generalizada. Mesmo sustentando a cena da sedução como fantasia, Freud ao constatar que os cuidados dos adultos, principalmente, os maternos são anteriores ao advento do Complexo de Édipo e o papel preponderante do pai, Laplanche resgata factualmente a sedução real e universal a que todos nós estamos submetidos. A sedução desse modo está ancorada em experiências reais, não são fantasias que criamos para dar conta das origens dos nossos traumas.

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