Saúde e a Psicodinâmica do Trabalho
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Saúde e a Psicodinâmica do Trabalho
Quanto mais saudável uma pessoa está em todos os seus aspectos, maior é sua capacidade de ação no mundo, em outras palavras, saúde está relacionada à capacidade dos sujeitos de estarem não apenas adaptados ao seu meio, mas de conseguirem agir sobre esse meio, conforme aponta Christophe Dejours.
A partir dessas considerações é possível perceber a saúde como algo dinâmico, que se constrói ao longo do tempo e que deve ser conquistada e reconquistada continuamente, e não um simples estado neutro a ser mantido.
Se ter saúde está relacionado à capacidade das pessoas transformarem o ambiente, se movimentarem e agir no mundo, como aponta Dejours (1986). Então, será que há relação entre a saúde mental e o trabalhar?
Primeiramente, é válido considerar a possibilidade do trabalho permitir a construção da saúde dos sujeitos, ou seja, como o resultado de vários processos vividos pelo sujeito, que precisam ser mantidos e desenvolvidos ao longo da vida, constroi-se uma parte estruturante da subjetividade, e o trabalho pode ajudar a reforçá-la, a desenvolvê-la, a construí-la, propiciando mais condições para uma perspectiva saudável.
Toda vez que se realiza um trabalho bem-feito e útil, gera-se um impacto positivo para a identidade, sobretudo profissional. Estar em situações favoráveis para o desenvolvimento profissional é algo saudável. Todavia isto depende de processos sociais e organizacionais que permitam aos sujeitos compreenderem que aquilo que fazem contribui, de alguma maneira, para os outros, para a organização onde trabalham (HUBAULT e BOURGEOIS, 2016) e para a sociedade.
Quando o trabalho não propicia condições para tal, ele se torna um impedimento (SZNELWAR, MASCIA e BOUYER, 2006). Não é à toa que vivemos uma situação em nossa sociedade em que os distúrbios psíquicos relacionados ao trabalho se tornaram prevalentes, chegando a uma das principais razões de adoecimentos.
A responsabilidade das escolhas organizacionais precisa ser apontada para que se possa tornar possível a transformação efetiva do contexto de trabalho. Segundo o ponto de vista da Psicodinâmica do Trabalho, o trabalhar pode e deve fazer sentido, algo que é o inverso dos pensamentos predominantes e hegemônicos na História, que consideram o trabalho como uma atividade de segundo plano, um castigo, algo a ser realizado sob a égide do sofrimento, da pena e, para a muitos, desprovido de sentido (SZNELWAR, HUBAULT, 2015).
Precisamos assumir o pressuposto que a construção do sentido do trabalho é algo possível. Como se sabe, existem trabalhos que são desprovidos de conteúdo, monótonos, repetitivos, sem sentido e com poucos desafios, criando cenários desoladores, arriscados no que diz respeito à saúde mental, também mais propícios para a ocorrência de acidentes e de doenças. É falsa a premissa de que seria possível ao ser humano fazer algo repetitivo durante horas, dias, semanas, meses ou até anos anos sem que isso transforme sua subjetividade.
Por outro lado, um trabalho assentado no culto ao desafio constante e ilimitado também pode ser prejudicial aos sujeitos que trabalham. A busca por performances cada vez maiores, a insegurança e o medo que por vezes são consequências desse modelo de gestão podem esvaziar as possibilidades de vínculos sociais, seguindo por um caminho contrário ao da validação do sentido do trabalho.
Ambas as tendências desconsideram a subjetividade do profissional. Enquanto a primeira nega a subjetividade, a segunda busca utilizar os anseios subjetivos para extrair o máximo de produtividade, ainda que às custas dessa própria subjetividade. Ambas desconsideram o papel fundamental da experiência do real, no primeiro caso monótono e esvaziado, no segundo caso medido por critérios quantitativos que não traduzem o encontro com o real, com o sofrimento, com a mobilização e com o engajamento dele resultantes.
Se invertemos essas tendências, de maneira a pensar em organizações que propiciem espaços de reconhecimento fundados na elaboração da experiência do real do trabalho, a atividade laboral guardará um profundo potencial realizador, transformador, emancipador.
Como nos aponta Dejours (2012), o trabalho jamais é neutro no que diz respeito às pessoas e à sociedade, é pelo trabalho que se produz o melhor e o pior no que tange à sociedade e a cultura.
Assim, é razoável que se defenda o pensamento de que todos tenham o direito a um trabalho interessante, com conteúdo desafiador, que permita a construção de caminhos que favoreçam os processos de realização de si e da construção da saúde.
