Por que estudar o trabalho?
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Ao pensar no trabalho, percebe-se que, na vida adulta, esta é uma das atividades que mais faremos, ou pelo menos a maioria de nós. Só pelo tempo que ocupa (ou ocupará) em nossas vidas, ele já tem a sua importância.
Num sistema produtivo, uma vez já definido os processos, os fluxos, o que entra e o que sai, trabalho é o que resta a ser feito. Trabalho está relacionado ao que adicionamos. Está relacionado ao uso do meu tempo, do meu corpo, da minha inteligência, da minha criatividade, da minha subjetividade, para algo acontecer. Ou seja, trabalho é algo intimamente relacionado a uma ação eminentemente humana, uma ação de transformação do mundo externo. É o que tem de “vivo” naquela situação e, por isso, utilizamos o termo trabalho vivo.
Só que ao mesmo tempo que transformamos o mundo, ele nos transforma! Podemos ser versões melhores hoje do que éramos ontem justamente por conta dos desafios impostos pelo enfrentamento do mundo externo, pelas transformações que conseguimos realizar.
Como escreveu Christophe Dejours, “trabalhar não é só produzir, é transformar a si mesmo”.
Ao mesmo tempo, o trabalho vivo também diz respeito ao trabalho que cada um faz consigo mesmo. Como cada um se engaja, isto é, como em uma determinada situação mobilizamos o nosso corpo, a nossa inteligência, a nossa subjetividade. Dessa forma, compreende-se que a aprendizagem ocorre de fato quando incorporamos “dentro de nós”. Por isso, trabalhar está também relacionado com a perspectiva de desenvolvimento pessoal/profissional, através da incorporação de competências a partir das regras de um ofício. A própria curiosidade, inerente ao ser humano, é potencializada pelo uso e aquisição de saberes que possibilitam uma ampliação de nossas capacidades.
Outro aspecto é que (quase) nunca trabalhamos sozinhos, trabalhamos para alguém, ou com alguém; ou seja, o trabalhar também é atravessado por uma dimensão social. Por mais que acreditemos que aprendemos algo totalmente sozinhos, sempre foi a troca, a validação, a relação (direta ou indireta) com outra(s) pessoa(s) que nos deu a possibilidade de perceber a nós mesmos.
Nesta perspectiva, o trabalhar tem uma importância central na vida das pessoas, mas não pode ser confundida com a vivência exclusiva no mundo do trabalho, algo que pode levar a exaustão e/ou a dificuldade de se manifestar em outras esferas da vida. Os extremos polarizados em geral promovem consequências pouco desejáveis.
Se trabalhar está relacionado com poder ser útil, poder manifestar suas virtudes e habilidades, então, estar privado de trabalhar, seja por qualquer razão, está relacionado a estar impedido justamente de poder se manifestar e, em geral, isso pode trazer consequências indesejáveis para as pessoas.
Para compreender um pouco melhor a questão, precisamos discutir as suas premissas baseadas na Psicodinâmica do trabalho:
A primeira premissa é que somos indivíduos que desejam (consciente ou inconscientemente) contribuir por meio da manifestação de nossas virtudes e habilidades. As pessoas querem ser úteis, querem utilizar suas virtudes para contribuir com a sociedade. Até podemos dizer que há pessoas que não são assim, mas são mais exceção do que regra. E olhamos para a regra.
A segunda premissa que precisamos considerar é que somos seres intersubjetivos, ou seja, a confirmação da nossa existência (e das nossas obras/feitos) depende do outro. Assim, quando fazemos algo e não recebemos confirmação se o que fizemos é útil e bem-feito, corremos o risco de ficar em dúvida se somos úteis e/ou se temos capacidade para tal. Na ausência de confirmação externa a partir do outro, ou seja, de um silêncio organizacional, posso ter dúvidas sobre minhas próprias virtudes e habilidades.
Isso leva à validação de quem somos por meio daquilo que fazemos, pelo nosso trabalho, pela nossa obra. Ela não é a única relação, mas é uma muito importante.
Com essas premissas estabelecidas para compreender a importância do trabalho, não é de se espantar a situação, por vezes controversa, da aposentadoria ou da demissão. Em geral, elas anunciam a ruptura de um período produtivo para outro que poderá ser um vácuo quanto ao sentido das ações, levando a um estado delicado de saúde mental.




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