Saúde Mental: à luz da complexidade
- Studio Criativo & Estratégico

- 16 de set.
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A questão da saúde e da saúde mental tem se tornado uma preocupação global desde as pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Essas organizações têm registrado um aumento significativo no adoecimento da população em geral e, de modo particular, em sua relação com as modalidades contemporâneas de organização do trabalho, sobretudo as baseadas nos preceitos do neoliberalismo
Desde a primeira metade do século passado, pesquisadores vêm se dedicando a compreender as razões desse adoecimento para, a partir disso, buscar modos de promover a saúde das pessoas. Isto se agravou a partir dos anos 1980, considerando-se os marcos da chamada “virada neoliberal’ e da implantação crescente do gerencialismo como pilares das relações de trabalho. No entanto, compreender o processo de adoecimento e oferecer tratamento, não conduz necessariamente à saúde. Corre-se o risco de reduzi-la à mera ausência de doença, isto é, supor que, ao eliminar a enfermidade, o indivíduo automaticamente se torne saudável.
A definição de saúde proposta pela OMS, em 1946, como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”, entende a saúde como uma condição positiva que abrange não só a inexistência de patologias, mas também o equilíbrio e a harmonia do indivíduo nas esferas física, psíquica e social. Essa formulação, contudo, traz consigo o grande desafio de interpretar conceitos como “estado de bem-estar”, “condição positiva”, “equilíbrio”, “harmonia” e as próprias esferas física, psíquica e social. O que, afinal, significam esses termos? Quando conceitos são tão genéricos, abrem-se múltiplas possibilidades de interpretação, a polissemia. A confusão e o desentendimento se descortinam, uma vez que há muita margem para interpretações as mais distintas e divergentes. Como agir face esta miríade de interpretações para se constituir ações efetivas de promoção da saúde baseadas no respeito e desenvolvimento das profissões.
A situação se torna ainda mais desafiadora quando observamos que cada área das ciências da saúde, ao definir seus objetos de estudo, elabora também suas próprias concepções de doença e de saúde: medicina em geral, psiquiatria em particular, fonoaudiologia, psicologia, terapia ocupacional, para citar alguns exemplos clássicos. Com a fragmentação dos campos de investigação, tornou-se difícil alcançar uma visão ampla e integrada sobre o que seria um corpo e uma mente saudáveis.
Além disso, permanece a questão: o que significa estar em equilíbrio e harmonia nos planos físico, psíquico e social? Se já enfrentamos dificuldades em definir o que é um corpo saudável e uma mente saudável, como pensar a integração do indivíduo ao seu meio de maneira verdadeiramente positiva? Esta integração não pode significar uma adaptação das pessoas ao seu trabalho, ainda mais que as modalidades de organização do trabalho desconsideram a importância dos cenários baseados na cooperação, na integração das equipes e na importância do viver-junto e da criação de uma perspectiva de produção que efetivamente crie cenários propícios para o desenvolvimento individual e coletivo. Assim, não se trata de uma questão que se restringe às ciências da saúde. Trata-se de um desafio ligado à organização do trabalho e à concepção e ao projeto da produção em todos os setores da atividade humana, sem exceção. Assim, parte significativa da responsabilidade e das possibilidades de ação está centrada nas ciências da engenharia e da administração. Isto também significa que há aspectos fundamentais relacionados à própria construção da democracia, uma vez que nos ambientes de trabalho se experiencia modos de viver que favorecem ou não a participação, o engajamento e a capacidade de diálogo entre os mais diferentes atores sociais.
O objetivo deste texto não é apontar saídas ou soluções para o tema. Ao nos depararmos com a realidade atual de nossa sociedade e suas questões, buscamos instigar uma reflexão que vá além da superficialidade diante de um assunto tão complicado e cheio de nuances. Não cabe, neste breve espaço, desenvolver um debate aprofundado com diferentes interlocutores e linhas de pensamento. Trata-se de evidenciar as razões pelas quais esse problema é, de fato, muito complicado e precisa de um olhar complexo não apenas para aprimorar a sua compreensão, mas também para favorecer a construção de soluções que não sejam “ultra-simplificadoras”. Soluções deste tipo, de um modo geral, resolvem questões pontuais e não consideram diferentes aspectos dos problemas a serem enfrentados. Isto é muito arriscado uma vez que outros aspectos dos problemas podem ser agravados.
Edgar Morin favorece este tipo de olhar! Citamos o seu conceito de complexo: “um tecido de elementos heterogêneos e inseparáveis, que contém o paradoxo do um do múltiplo e se manifesta como um conjunto de acontecimentos, ações, interações, determinações e acaso que formam o mundo fenomenal”; assim como ele define o pensamento complexo, por sua vez, “busca religar saberes fragmentados e contextualizar a realidade, em vez de simplificá-la”.
Quando estudamos a saúde mental sob a ótica de Morin, perguntamo-nos como se constitui esse tecido conceitual elaborado com base em elementos heterogêneos e inseparáveis. Como compreender o paradoxo do uno e do múltiplo no campo da saúde mental? Mais especificamente, como um indivíduo pode ser único e múltiplo ao mesmo tempo? Em nossa sociedade em geral e, de modo particular, nas organizações de trabalho, como descrever esse mundo fenomenal? Um mundo que se manifesta como um conjunto de acontecimentos, ações, interações, determinações e acaso.
Um outro aspecto da complexidade diz respeito a algo fundamental quando estão em questão os sistemas vivos. Trata-se de um fenômeno descrito na física, a partir da Termodinâmica. A tendência dos sistemas, considerados como entrópicos, é de produzi uma constante desordem seguida de novos níveis de ordenamento. Em suma, há um constante processo de transformação, o que exige de tudo que é vivo, o desenvolvimento de estratégias para dar conta de novos estados, isto é, aquilo que se desordenou é reordenado em outro patamar. Isto vale para todos nós, enquanto seres vivos! Por outro lado, isso vale para o desenvolvimento de um olhar sobre outros sistemas vivos, como as organizações e a para a sociedade, de um modo mais amplo. Assim, não se pode considerar que haja um estado, algo dado definitivo. Um olhar complexo sobre as empresas e sobre as instituições permite compreender que nada está parado, estabelecido, definido. Há uma constante transformação e isto precisa ser considerado não apenas com relação a questões mais macro, mas também no nível de cada sujeito e dos coletivos de trabalhadores que integram e constituem as empresas e instituições. O que está em jogo tem a ver com os jogos de poder e com as condições que todos os atores sociais envolvidos têm para exercerem um papel ativo nesses processos de reordenamento, considerando o que, para nós, na PDT, significa o desenvolvimento de atividades de discussão, de compartilhamento de experiência e da redefinição das regras de trabalho.
Postas essas considerações, o alerta que nos é dado por Morin é o de não tratar esse tema isoladamente, como um fenômeno descontextualizado das esferas física, psíquica e social. Isso significa não dissociar corpo, mente e contexto social. Corpo, mente e sociedade são elementos heterogêneos e inseparáveis. É necessário, portanto, um pensamento que combata a simplificação, a fragmentação e a descontextualização histórica.
As ciências da saúde que se ocupam da saúde mental são desafiadas a não permanecer estritamente no campo subjetivo da mente. Essa mente habita um corpo e, ao mesmo tempo, corpo e mente habitam um meio social. Isso permite pensar que somos uno e múltiplos ao mesmo tempo. Por isso, os debates relativos ao mundo do trabalho são mais significativos e ricos quando diferentes pontos de vista são colocados em debate, incluindo diferentes disciplinas.
Um dos princípios da psicanálise, desde Freud, é que somos o que somos devido à relação com o outro. Constituímo-nos a partir dessa relação. Não existe indivíduo isolado: desde a nossa origem, há relação vertical e desigual — a clássica relação entre bebê e adultos, universal em todas as culturas. Por tanto, nos constituímos, dependemos e nos identificamos na relação com o outro.
Por fim, como desafio, é proposta uma reflexão da Psicodinâmica do Trabalho (PDT) sobre essa questão. A título de exemplo, trazemos algumas reflexões sobre o uso do pensamento complexo no trabalho teórico de Dejours e da PDT.
A partir das contribuições de Freud sobre os processos inconscientes, Dejours articula a noção de um corpo que trabalha — um corpo inteligente e astucioso diante dos desafios inesperados da atividade de trabalho. Um corpo que sente e pensa. Nesse sentido, corpo e mente não se dissociam. Podem ser vistos como realidades heterogêneas, mas que se articulam para que esse corpo trabalhe. O trabalho é sempre um processo de transformação da realidade, qualquer que seja ele. E, ao trabalhar, o sujeito não apenas transforma a realidade, mas também se transforma. Essa transformação não ocorre no vácuo, mas em um contexto específico: o da organização do trabalho. Esta organização é fruto de escolhas antecedentes, a partir das decisões de quem a concebeu e a projetou e, também, a partir de decisões construídas no dia a dia, em tempo real face às questões e desafios que se descortinam. Isto reforça a importância de se considerar as organizações a partir de um olhar complexo, que permita compreender as relações, o tecido que se constitui nas relações constituídas na dinâmica da produção e do trabalho.
Este ponto de vista também pode ser enriquecido pelo pensamento de Alain Wisner, mestre fundador da Ergonomia Centrada na Atividade e um defensor da Psicodinâmica do Trabalho. Para ele não há, no mundo real, problemas constituídos, dados. Os problemas precisam ser construídos e isto deve ser feito a partir de um posicionamento dos sujeitos no qual seja possível considerar-se diferentes olhares, diferentes pontos de vista, para que se possa construir uma perspectiva mais rica e abrangente. Simplificar os problemas seria reduzir a possibilidades de se construir soluções mais efetivas e que considerem a riqueza, a diversidade e a possibilidade de haver o controverso. Enfim, todas as soluções devem ser construídas através de processos de decisão que consideram as diferentes perspectivas e se constituam em verdadeiros compromissos entre diferentes atores sociais.
Quem trabalha enfrenta não apenas as exigências da atividade em si, mas também as injunções, os constrangimentos e pressões do sistema de trabalho. Ao falar em organização do trabalho, estamos nos referindo à estrutura organizacional, com sua hierarquia, divisão de tarefas, de responsabilidades, de departamentos e unidades. Essas organizações — empresas e instituições — situam-se em uma sociedade constituída historicamente. Assim, as características das organizações se transformam ao longo do tempo, configurando novas modalidades de relações intra e inter-organizacionais.
Enfim, um olhar complexo sobre as organizações e sobre o trabalho é fundamental para que possamos ultrapassar os impasses que vivemos, em muitas situações de trabalho, constituem cenários patogênicos e que podem nos ajudar a compreender como sendo um dos principais determinantes dos distúrbios e doenças psíquicas relacionados ao trabalho.



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