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Trabalhar não é só produzir, é, ao mesmo tempo, transformar a si

  • Foto do escritor: Studio Criativo & Estratégico
    Studio Criativo & Estratégico
  • 19 de nov.
  • 5 min de leitura

Dr. Seiji Uchida e Dr Laerte Sznelwar


Falar, antes de mais nada, sobre o trabalho, é falar sobre um fenômeno social e historicamente determinado. Sua compreensão requer a contribuição de várias ciências para entendermos a sua importância para cada sociedade. Para ficarmos nas mais importantes, História, Sociologia, Antropologia, Filosofia, Economia Política e Ciências do Trabalho (Ergonomia da Atividade e Psicodinâmica do Trabalho). Atualmente, incluiríamos também a Psicanálise, para compreendermos a dimensão inconsciente que perpassa as atividades humanas. Cada sociedade produz e se reproduz através do trabalho de maneira particular, ou seja, apesar de ser um fenômeno universal, para a sua compreensão é necessário sempre entender o trabalho em sua especificidade e em um determinado momento histórico. Não cabe aqui neste breve texto apresentar como cada sociedade produziu e se reproduziu por meio dos diferentes modos de organizar o trabalho.

Devemos ter em mente que o trabalho é um processo que transforma a natureza e, ao transformá-la, o homem-animal se transforma em ser humano. A natureza, por seu lado, antes bruta em sua realidade, se transforma em uma natureza humana. E o homem-animal se transforma em um sujeito historicamente determinado. Como entender esta proposição de Hegel e Marx? Estes autores ao defenderem uma nova lógica para entendermos o processo social do trabalho, exigem de nós uma nova maneira de pensarmos. Ou seja, propõe a lógica dialética, uma lógica que ultrapassa a relação de causa e efeito, sendo que, dialeticamente falando, causa e efeito ocorrem simultaneamente, ao mesmo tempo. Hegel fala de um homem genérico, já Marx está mais preocupado em compreender o homem concreto dentro da dialética humana no interior da concretude dos processos produtivos capitalistas.

A pergunta principal deste texto é, o que através do trabalho produzimos? Como ocorre a transformação da realidade e, ao mesmo tempo, a transformação de do sujeito? Como apreender a atual dialética do trabalho? É possível romper o processo de alienação e buscar a emancipação? 

Propomos a resposta dada pela PDT. Por ser uma clínica do trabalho, o objeto do olhar e da ação desta abordagem é sempre voltada para o singular. A partir da compreensão de cada situação particular de trabalho, pode-se sair do plano teórico genérico e agir no âmbito concreto e real do dia a dia de quem trabalha, sob certas circunstâncias, constrangimentos e limites dentro de uma determinada instituição ou organização do trabalho.

Dejours faz uma distinção importante entre poiesis e arbeit. Diz respeito a dois tipos diferentes de processo de trabalho. Poiesis está voltado para o mundo externo, processo de transformação da realidade, do mundo. Arbeit é um processo interno ao sujeito, um trabalho de si sobre si. Estes dois processos ocorrem simultaneamente, ou seja, o sujeito ao transformar a realidade, ao mesmo tempo, efetua um trabalho interno que o transforma. A PDT ao adotar a diferença entre o trabalho prescrito e o trabalho real dada a discrepância que existe entre essas duas naturezas distintas, propõe um novo conceito: o real do trabalho. Este se impõe ao sujeito que trabalha pelo fracasso, pelo imprevisto, pelo fenômeno adverso, pelo acidente e assim por diante. O real resiste à vontade, ao desejo, àquilo que o sujeito intenciona fazer; exige então para a sua superação. Essa resistência não é apenas externa ao indivíduo; é também interna, ela provém do seu interior, das suas dificuldades, das suas defesas psíquicas, da sua inabilidade, da sua inexperiência, Para superar as dificuldades do real é necessário o engajamento de toda a subjetividade; é quando o sujeito se coloca à prova e procurar superar as dificuldades existentes. Nessas circunstâncias, as diferentes experiências são vivenciadas e podem se transformar em ganhos para a subjetividade. Segundo a PDT, é o trabalho, o agir no mundo frente às adversidades, que gera a criatividade, engenhosidade e inteligência astuciosa, não o inverso como correntemente se entende. Não se trata de uma propriedade intrínseca ao ser, mas algo que o sujeito desenvolve a partir do seu potencial na existência. 

O trabalho é um mediador privilegiado entre a subjetividade de quem trabalha e a realidade. Através do trabalho o sujeito transforma e se transforma. Arbeit aqui significa o trabalho que o sujeito realiza dentro de si para repatriar as suas experiências e que possibilita o desenvolvimento de sua psiquê. Como já explicitado, é um fenômeno cheio de fracassos, de sofrimento, de frustração, inclusive de raiva. Por outro lado, a superação das dificuldades propicia uma transformação do sofrimento em prazer. Após esforços, às vezes, muito grandes, quando o sujeito se dá conta que atingiu seus objetivos há uma repatriação para a sua subjetividade, isto a desenvolve, a enriquece. Ressalte-se que não se trata de um processo individual, que se dá apenas de si para consigo mesmo. Este retorno passa, sobretudo, no mundo do trabalho socialmente definido, como um reconhecimento por parte do outro, através dos julgamentos de beleza e de utilidade.

Este trabalho de si sobre si mesmo não acontece apenas no trabalhar, todas as ações humanas, desde a mais tenra infância são vivenciadas como uma relação dialética entre a dificuldade e a superação. Basta imaginarmos as dificuldades e o tempo que passamos para aprender sobre os mais variados assuntos, incluindo certas ações que consideramos banais, como andar e falar. Quanto esforço é necessário para tal e quanto apoio foi necessário para que passemos a compreender que além de serem importantes para o sujeito, as ações podem e devem ser apreciadas e consideradas pelos outros para que se possa lhes dar sua devida importância.

Ao abrirmos essa perspectiva para o entendimento das ações humanas, podemos reconhecer como é importante incentivar o desenvolvimento de ações que reforçam a subjetividade e que possibilitam aos sujeitos o desenvolvimento de sua inteligência. Inteligência que não se restringe ao cérebro e àquilo que se considera como as nossas qualidades no âmbito da cognição. Inteligência que é incorporada, que é percebida, que é sentida que não está localizada em uma parte única da nossa corporeidade. Como já assinalado, parte dessa inteligência é a astúcia que os humanos desenvolvem para darem conta daquilo que lhes traz surpresas, dificuldades ainda não encontradas e que precisam ser superadas. Trata-se daquilo que se considera como sabedoria prática, que também favorece a ação no mundo.

Na vida, de uma maneira geral e, mais especificamente no trabalhar, a possibilidade de desenvolvimento de cada sujeito é fundamental para que se trilhe caminhos em direção à emancipação. Este processo, sempre árduo e que se descortina durante toda a vida profissional é o contrário dos processos de alienação psíquica, coalhados pelas defesas que ajudam os indivíduos e, mesmo os coletivos, a superarem o sofrimento patogênico que advém dos impasses de certas modalidades de organização do trabalho.

Portanto, trabalhar é superar as dificuldades, é possibilitar que se possa além de produzir (poíesis), desenvolver-se, enriquecer a subjetividade. Nesse sentido, arbeit, o trabalho de si sobre si mesmo, é uma atividade do pensamento, modulado pela emoção, dos caminhos que são desenvolvido para encontrar soluções e para a elaboração dos sentimentos, favorecendo a superação das dificuldades, principalmente quando é possível superar a sensação de inutilidade e de se fazer algo que não faça sentido.

Logo, trabalho real é o trabalho efetivamente realizado, criativo, engenhoso e astucioso tanto voltado para o exterior como para o interior de cada indivíduo. Trabalho que quando há transformação do sofrimento em prazer, contribui para o desenvolvimento e emancipação do sujeito. 

Quando saímos do âmbito geral e nos debruçamos, através da clínica do trabalho, sobre o particular, podemos apreender este processo, mesmo diante da volatilidade deste mundo do trabalho atual. É neste sentido que podemos entender esta frase: trabalhar não é só produzir, é, ao mesmo tempo, transformar a si mesmo. 



 
 
 
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