A Identidade no Mundo da PDT
- 22 de jul.
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Atualizado: há 4 dias

Quem sou eu? Pode parecer uma pergunta estranha, mas, se refletirmos um pouco, é possível perceber que também nem sempre é algo simples de ser respondido. Isso porque, conforme a Psicodinâmica do Trabalho (PDT), a construção da identidade passa por nossas ações, pelo nosso agir no mundo e também pela confirmação externa do outro.
Parte do que reforça nossa identidade pessoal está ligada à confirmação externa de outras pessoas, auxiliando a consolidar uma narrativa pessoal e uma história individual. Ao mesmo tempo, essa confirmação externa cria e oferece a noção de pertencimento, de conjunto e de grupo.
Certamente muito do que fazemos também valida quem somos, mas não basta simplesmente fazer, a confirmação do outro de que fizemos o “certo”, o útil e o bem-feito é necessária.
Conforme adquirimos repertório e senioridade, passamos a ter métrica sobre nossas próprias obras, sua utilidade e sua qualidade. Mas, ainda assim, uma situação pode se tornar frágil, dependendo do contexto em que nos encontramos. Mesmo em situações já dominadas por nossas habilidades, pequenas mudanças podem provocar consequências notáveis, como quando dirigimos um carro diferente ou fazemos uma receita nova; a habilidade existe, mas o contexto muda. Isso significa que nossas competências são contextualizadas.
Seguindo o exemplo, por melhor que seja um cozinheiro, ele precisará aprender a cozinhar a nova receita e, durante este processo, se ninguém confirmar que está fazendo uma boa atuação, poderá se colocar em dúvida se de fato está conseguindo entregar bons resultados, podendo, inclusive, duvidar se sabe fazer. Ou seja, sem a validação externa, podem surgir crises de identidade profissional. No entanto, basta a confirmação de que está fazendo um bom trabalho, para esta condição mudar.
Compreende-se então que para a construção de uma identidade e uma relação saudável no trabalho não basta fazer, é necessário ser reconhecido pelo que se faz.
Há duas dimensões da identidade: a social e a psíquica. A identidade social está ligada ao viver junto, ao pertencer a uma obra comum, a algo que me identifico. Pertenço a uma família, pertenço a um gênero, à torcida de um time, ao grupo de fãs de uma banda e por aí vai. Esta necessidade de confirmação de pertencimento nunca se encerra, ela é necessária e importante subjetivamente para o sujeito, embora com contornos e intensidades distintas ao longo de sua vida. No mundo do trabalho funciona da mesma forma. É fundamental a confirmação de pertencimento com a equipe da qual fazemos parte, a área que atuamos ou a organização que estamos juntos. A qual obra comum pertenço? Qual é a minha contribuição neste todo maior? Toda vez que uma organização realiza ações que reforçam o pertencimento, estamos em uma perspectiva de reforço da identidade profissional e vice-versa.
Já a identidade psíquica está relacionada à singularidade do indivíduo. Eu sou eu, tenho existência própria, minha marca pessoal. A confirmação de singularidade está relacionada com nossos feitos, nossas obras, nossas realizações, segundo dois critérios: utilidade e estética. Quanto mais confirmação temos sobre nossa singularidade, por meio do reconhecimento da utilidade e da estética do que fazemos, maior é o reforço da nossa identidade psíquica. E vice-versa.
Agora já é possível perceber quão importante são os reforços da identidade em suas dimensões, pois, conforme aponta a PDT, a identidade é a “armadura” da saúde mental. Quanto mais reforçada é a identidade de um indivíduo, mais reforçada é essa “armadura”, ou seja, estamos numa perspectiva de uma relação saudável com o que fazemos.
Vale destacar que, ao longo da vida, a identidade pode mudar e que também a dependência extrema da validação externa pode ser prejudicial para o indivíduo. No entanto, para a PDT, não se pode olvidar a importância do olhar do outro para a construção da nossa própria constituição. Se a identidade é aquilo que integra, é aquilo que dá coerência ao indivíduo, quando este está em desenvolvimento e transformação, é o olhar do outro que lhe oferece garantias de que segue sendo ele mesmo, apesar de todas as transformações.
Em geral, essa confirmação depende do olhar do outro em situações em que não estamos ainda seguros, que não dominamos ou exercemos com maestria. No entanto, aos poucos, podemos prescindir dessas confirmações conforme vamos adquirindo senioridade. O olhar do outro me ajuda a me sentir seguro o bastante para deixar de depender dele e poder me afirmar. A construção da identidade, nessa perspectiva, pode apontar para o aumento da capacidade dos sujeitos de agir no mundo, sendo um meio importante para a construção da saúde mental.




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