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O trabalho invisível do cuidar


Por Laerte Idal Sznelwar Recentemente foi realizada a prova do ENEM e a redação proposta aos candidatos tratava do trabalho invisível da mulher no ato do cuidado. Em um primeiro momento, essa questão remete ao trabalho doméstico e ao fato de que pouco se fala dele. O reconhecimento da sua importância fica, na grande maioria das vezes, restrito ao lar, à família. Trata-se de uma atividade humana fundamental, voltada mais especificamente para o trabalho de reprodução e para o desenvolvimento de laços e relações que modulam tanto a existência do sujeito, como a da própria sociedade. Apesar de não ser o único modulador dessas relações, aquilo que se faz em casa é também fundamental para a construção da psiquê e dos potenciais de vida de cada um. Todavia não se trata de uma atividade humana considerada como trabalho (formal) no seu sentido restrito, uma vez que não se trata de uma relação remunerada e regulamentada por uma legislação específica. Trata-se de uma atividade que é exercida no âmbito das relações familiares, que tem determinantes histórico-culturais, constituindo um amplo espectro de possibilidades no que diz respeito à divisão das ações e da construção de modos de cooperação nos casais e, de um modo mais amplo, na família e nas relações de proximidade. Porém, há exigência de trabalho, em seu sentido mais amplo, uma vez que se trata de algo que solicita das pessoas um engajamento, a disponibilização do seu corpo e de sua psiquê. Trata-se do trabalho no seu sentido subjetivo Ressalte-se que o cuidar não se dirige apenas aos filhos, àqueles que precisam dos cuidados para viver e para se desenvolver. O cuidado está sempre direcionado ao outro, seja em momentos em que não ocorre nada de excepcional, seja em momentos de doença, de perda da capacidade para desenvolver as atividades do dia a dia, seja na proximidade da morte. O cuidar, uma atividade de amplo espectro, invisível e uma atividade considerada como parte daquilo que se considera como do “feminino”. Isto não significa que seja direcionada, e de exclusiva responsabilidade, das mulheres. O fato de poder ser considerada como uma atividade no feminino não significa que são as mulheres que devem arcar com tudo que diz respeito a ela; apesar de haver ações que só as mulheres podem desenvolver, como dar a vida, através da gestação e do parto e, também amamentar. Assim, o cuidar não pode ser visto a partir de uma visão binária das relações de gênero. Mesmo em se tratando de uma atividade no feminino, grande parte das atividades do cuidar podem ser desenvolvidas por homens. Ainda mais, se pensarmos na diversidade de gêneros, é importante ter claro que cuidar pode compor o espectro de ações de tudo que é humano, seja no lar, ou fora dele. Assim, há uma ampla gama de modos de divisão do trabalho do cuidar definidos por razões as mais variadas nas diferentes sociedades. Há que se considerar que, por ser uma atividade no feminino, houve e há uma prevalência de mulheres que desenvolvem as ações do cuidar. Muitas vezes, por relações de dominação de gênero, mas também por ser algo que também pode trazer muita satisfação e possibilidades de desenvolvimento enquanto pessoa e como parte dos processos de realização de si. É importante ressaltar a ideia que se trata de parte dos processos de realização de si, uma vez que há muito mais atividades desenvolvidas por mulheres tanto no lar como fora, que tem importância fundamental para que se desenvolva atividades que fazem sentido e que permitam o desenvolvimento de processos emancipatórios ao longo da vida. Quanta coisa se passa na invisibilidade, na relação entre duas pessoas, algo que não pode ser mensurado, nem mesmo definido como uma tarefa anteriormente determinada, trata-se de algo do registro da compaixão e do reconhecimento da existência do outro. A questão que se coloca diz respeito ao reconhecimento da sua importância, tanto no âmbito do lar, como da sociedade, de modo mais amplo. Vale lembrar que o cuidar não é apenas uma atividade definida como não remunerável, portanto, não suscetível às relações sociais de trabalho. Mesmo no lar, há muitas atividades do cuidar que são realizadas pela contratação de profissionais que trabalham neste setor da economia e que realizam atividades que também são pouco visíveis. Só recentemente houve um maior esforço no Brasil para se regulamentar este tipo de atividade profissional; atividade que, historicamente foi modulada por relações bastante complicadas, inclusive por causa dos constrangimentos determinados pelo trabalho escravizado e seus similares. Além disso, cuidar não se restringe às atividades do lar; há muitas profissões que se dedicam ao cuidar, em especial, todas aquelas do espectro da saúde, principalmente as da enfermagem de outras profissões engajadas em ações que visam cuidar da saúde, cuidar do corpo, da psiquê e da mente. Trata-se de atividades que também se desenvolvem na quase total invisibilidade e que tem uma predominância de mulheres, sem esquecermos que há profissionais homens que a exercem. No que diz respeito ao gênero, também não se trata de uma divisão binária, até porque, em termos psíquicos, há que se considerar as amplas possibilidades de existência do humano. Podemos ir mais longe, sem nos propormos a fazer reduções ou amálgamas perigosos que descaracterizariam a importância das atividades do cuidar, seja no âmbito doméstico, seja em instituições e empresas dedicadas a este tipo de atividade, principalmente na saúde. Cuidar, pode fazer parte de toda e qualquer atividade humana. Isto se considerarmos que, fazer bem um trabalho, fazer com esmero, respeitando as regras e tradições das profissões, evitar que haja degradação do ambiente, ou melhor, promover a recuperação do ambiente e daquilo que está degradado, é parte do cuidar; dos outros, do cuidar do mundo. Quanto mais pudermos retirar o cuidar da invisibilidade, quanto mais pudermos reconhecer a importância deste tipo de trabalho para as famílias, para a sociedade e para o mundo, quanto mais reconhecermos que se trata de uma atividade no feminino, desenvolvido de modo predominante por mulheres, menos injustiça haverá. Ainda mais, trata-se de atividades que tem, no seu bojo, um amplo potencial emancipatório. Reconhecer também significa reduzir e, se possível, eliminar os riscos da invisibilidade, que se expressam na redução das possibilidades de se trilhar um caminho propício para a realização de si, na emergência de distúrbios psíquicos e de desagregação dos coletivos e das relações tanto no seio das famílias como nas empresas. Ainda mais, sair da invisibilidade permite também que se reduza o espaço para a emergência de ações violentas, tanto no âmbito do lar, como na sociedade. Violência, muitas vezes, exercida contra as mulheres.

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