Reconhecimento no trabalho

Métricas e habilidades humanas
Existe um lado do trabalho que é de fácil visualização: itens produzidos, horas gastas, recursos poupados. Quando é possível mensurar o resultado do trabalho, a métrica fica aparente. Entretanto, o trabalho também exige investimentos que quase sempre passam despercebidos: criatividade, empenho, inteligência, conhecimento, empatia, engajamento, são algumas das habilidades não mensuráveis, mas que, ao mesmo tempo, impactam no resultado.
Olhar mais para os números e menos para as habilidades humanas é uma referência trabalhada desde cedo. É natural o aluno com boas notas receber elogios e tornar-se referência, da mesma forma que o aluno que ajuda um colega a realizar suas tarefas, não tem o mesmo reconhecimento. Comumente, as situações de reconhecimento são pautadas por modelos de avaliações que não traduzem o trabalho realizado num sentido mais amplo, focando-se apenas nas avaliações quantitativas de números e metas.
Importante ressaltar que a reflexão proposta não é trocar um indicador por outro, pois caminharíamos para o mesmo problema - o reconhecimento exclusivo de um ponto. A proposta é ampliar os critérios de julgamento, possibilitando o reconhecimento de habilidades e virtudes que poderiam ficar invisíveis, mesmo sendo fundamentais para o desempenho individual e coletivo.
Reconhecimento às avessas
Um segundo desafio é o reconhecimento às avessas, quanto o reconhecimento só se dá pelo erro. Um exemplo prático versa sobre o pagamento de salário: todos os meses o pagamento é realizado no dia certo e com o valor certo e raros são os casos de reconhecimento. Mas basta um dia de atraso ou o valor errado para que o profissional responsável seja responsabilizado pelo mau serviço que está prestando.
Esse exemplo é facilmente ampliado para outros grupos profissionais. Se o ambiente está limpo, significa que a equipe de limpeza fez o seu serviço; se nos sentimos seguros, é porque profissionais de segurança estão atuando; se a internet funciona, há um esforço da equipe de TI; se a oferta de água e energia elétrica flui normalmente, significa que tem muito trabalho sendo realizado pela equipe de facilities.
Quando se amplia o espectro é possível perceber que muitos desses profissionais atuam em operações preventivas, justamente para evitar que o problema aconteça e justamente por não deixarem o problema acontecer, não são reconhecidos por suas atuações. O trabalho não reconhecido vira invisibilidade, e invisibilidade deixa a sensação de que a equipe não está atuando.
Se o gestor opera com o olhar do reconhecimento às avessas, é provável que a equipe diminua até o ponto dos problemas se tornarem evidentes. Na realidade, a equipe cada vez mais enxuta vê as demandas aumentarem até ficar impossível manter o preventivo e o corretivo juntos e “os pratinhos começam a cair”, como se diz no popular. Quando uma situação chega a este ponto, significa que os profissionais já assumiram duas ou mais funções de outros colegas, horas extras se tornam comuns, as férias estão cada vez mais divididas e já não é mais possível manter o trabalho bem feito, por isso os “pratinhos caem”. Neste cenário, além dos problemas de ordem quantitativa, é comum identificar cenários com efeitos danosos para a saúde mental e não raros são as ocorrências de burnout, ansiedade e estresse.
A Psicodinâmica do Trabalho vai atuar sobre esse viés condicionado e ampliar a visão do profissional gestor, buscando conciliar o reconhecimento dos resultados e das habilidades dedicadas ao fazer, reconhecendo não só o resultado final, mas também todo o processo realizado para chegar até ele.




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